Aprendendo a ser

Minha foto
Fá-lo-ei por eles e por outros que me confiaram as suas vidas, dizendo: toma, escreve, para que o vento não o apague.

22 de maio de 2010

Motivo

"Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê."
Luis Vaz de Camões  
______________________________________________________________ 

 A Cecília Meireles

Mais uma vez
Procurando no papel em branco
Soluções pro meu vazio
Tateando no escuro
Algo que me aconchegue no silencio frio
Se de sentimentos minha alma é repleta
Porque em tantos momentos me sinto só e incompleta
Companhia não é o que falta
Mas cumplicidade
Sorriso não é o que falta
Mas amizade
Carinho não é o que falta
Mas sentimento
Tudo por aqui falta
Aquela coisa que se tem pra que tudo que se vive
Tenha vontade de florescer:
MOTIVO

19 de março de 2010

Homem sem arte


Era baixo, atarracado, calvicie espessa, pois só lhe restavam uns poucos fios em volta da nuca, fios ralos. Se dizia de grande impaciência para com tudo, evidenciava isso em preponderância com a família, a familia que fizera. Não, a verdade é que só com os filhos. Era um homem reto! A esposa era dotada de certa indulgência com as tolices do marido. Algumas vezes o bronqueava. Ele murchava logo apos, pois tinha grande devoção pela mulher. Ela que era dotada de grande valor para tudo que era de arte, jardinagem, corte-costura, cozinha, o que lhe conferia alguma elegância e delicadeza de gestos. Às vezes ele lhe cansava, dizia-lhe umas poucas e boas, contudo sem ferir-lhe demais, na serenidade de seu espírito.
Ele, dotado de certo poder linguajeiro, mais que a maioria dos homens daquele local. Argumentava facilmente e geralmente vencia tais embates, pelo grito e pela convicção, que em poucas pessoas se vê hoje em dia. Usava de algumas frases cruas, que assustavam qualquer um que entrasse em discussão com ele, mesmo aquelas discussoes ralas entre amigos à varanda de casa sobre a opiniao do que quer que fosse, como uma moça que fora desonrada. Também se valia de algumas irônias sem realce, nutridas pelo tom cáustico compunham a maneira de falar dele, outras vezes o silêncio e a cara de quem continha muita raiva acumulada. Seus verbos eram de matança, quando se dizia com raiva de alguém, tais como, degolar, matar, esfolar. Se fosse um homem de poder...Assistindo a reportagem policial dos jornais do meio dia ele se comprazia quando um assassino era cruelmente castigado, e a esposa quando ouvia seus comentários nao continha a surpresa com certa decepção pelo marido que tinha.
A impaciência do sujeito era algo incotido nele. Desde os grandes confrontos do seu caráter com o de outros homens até as pequenas falhas cometidas em casa, como deixar um copo em cima da pia sem ser lavado, era motivo de reclamaçao e ele podia reclamar horas a fio de tais frivolidade. Quando andava pela casa, ficava catando o que reclamar.
Ninguém atigia o seu grau de perfeição. Os filhos então, completamente aquém do seu padrão, quando ele não os diminuia, não acrescentava nada se algum conhecido o encontrasse na rua, e fizesse despercebido um elogio a um dos filhos, ele fazia sorriso sem vontade, sem encorajar os elogios que poderiam continuar a vir incomodá-lo.
Sim, ele só reinava solitário no alpendre da sua grande casa e sempre coxilando. A mulher era a única permitida a entrar naquele reinado, mas sempre se recusava a rede que ele oferecia no alpendre, pois ele sempre depois de trocadas duas palavras por coisas triviais, ou muitas palavras em que pudesse falar mal de alguém, dormia.
Verdade que pelo pouco esforço, tivera alguma sorte na vida. Bom emprego que lhe rendera uma aposentadoria gorda, a tranquilidade dos seus dias na grande casa em que podia espalhar toda sua preguiça o rendiam boas tardes de sono.
Telúrico! Isso eu nao tinha dito. Ou acomodado? Como poderia ser apegado ao local onde nascera se desprezava a natureza de muitos homens de lá? Uns canalhas! - ele dizia ao se referir nao somente a fraqueza de moral dos outros homens, como à despreocupação e vida boa que queriam levar, para isso contando com bebidas e mulher. O que parece até hoje composição agradável para alguns homens, ele condenava. Mas o que há de condenar na natureza de alguém por pobreza de espírito que tenha. Cada um dá o que tem. Velho clichê que nao se desgasta, pois é verdade. E ele, o que dava? Se ele mesmo sabia dar tao pouco de si para entes frutos dele, os filhos? Não entendia que muitos se valem do que podem para sobreviver, mesmo se utilizando por vezes de anestesiantes ou mesmo do outro. Ele nao ponderava nunca, pois estava sempre certo. Razoabilidade nao era para ele, mas a preguiça...
Orgulhava-se de nao ter o que fazer, de ter cumprido a sua luta. Há pessoas para as quais a vida é uma luta constante, tentando provar para si mesmo que não são incompetentes, se auto-afirmando: "eu sou!" Era assim aquele homem de pouco tamanho e muito orgulho, de cabeça exposta e coração fechado e tudo para esconder que nao tinha, nem soubera ter/fazer alguma arte na vida. O prazer da sua vida era que Dormia.

11 de março de 2010

Palavras avulsas

Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo...
Clarice Lispector


Talvez hoje seja o dia da não-palavra, embora pudesse ficar aqui, nesses devaneios que uma boa quinta-feirina pede, mas já que não são as palavras que contam, como já dizia ela: Clarice.
...E por vezes, diria eu, até complicam, afastam, simulam e tantas outras artimanhas de persuasão a palavra contém, que eu nao me atrevo a dizer. Por isso a opção de calar.
Os silêncios devem existir por algum bom motivo. Sejam constrangedores ou nao. Ali estão, prontos para serem silenciados e sentidos conforme o momento pedir.
Portanto, hoje, vou me reduzir a meu canto. Fazer as trivialidades do dia, ser engolida um pouco, mas só um pouco, pela obviedade das coisas, pelas poucas palavras nas relaçoes, pelo meu desalinhado sem precisar pedir desculpas, pelos reclames vãos, pelo cansaço desse sol abrasador de Fortaleza e pela insondável solidão, repleta de silêncio e do contato mais honesto comigo mesmo, que alguém, por puro amor, um dia, me concedeu, e tudo isso, para que eu nao fosse orgulhoso demais a ponto de pensar que o outro seria tao ligado a mim, a ponto de nao me deixar sozinho, que o outro só era outro porque era o ponto para o qual eu olhava, enquanto esquecia de olhar pra mim
Esse outro...distante, indefinido. Eu só poderia olhá-lo com algum discernimento se um dia eu olhasse para mim com plena aceitação . Ah, o outro...deixa o outro com os problemas dele. Deixa o outro "SER" displicentemente. Tão pequeno como você. E os problemas? Só sao maiores que ele, porque ele é pequeno. Os seus meus problemas são do tamanho que eu vejo.
Se puder fazer algo grandioso, faça por você mesmo. E serás grandioso para ti e para o outro, se lhe convier.
A minha pequenez diante das coisas nunca me foi problema.
Difícil é reconhecer o próprio tamanho, o resto é...próximo! alguém pode falar melhor que eu...

5 de março de 2010

Não gostar


É um tal enfado. É não querer ver. É encontrar-se sem querer e virar o rosto por querer. É ter a alma deserta. É ver a morte de ti no outro. É ver a morte do outro em ti. É perturbar-se ao encontrar uma lembrança do que foi. É ficar sério ao olhar uma foto de ti sorrindo com o outro. Quanta contradição, como posso já não gostar, se gostar está para tudo que há no mundo, pois o mundo nos encanta, nos faz gostar!....e não gostar? poderá ainda ser um sentimento profundo? Não é nem esquecer-se...Pena não ser simplesmente um esquecimento, porque o esquecimento é um conforto da angústia, ou uma angústia conformada pela ausência aceita, declarada, ou nao delcarada, que veio de uma distância que não foi combinada, mas friamente subtendida. É andar sorrindo entre os amigos, mas na presença inesperada, que vem no corredor, o rosto congelar-se, porque sorrir não é mais aqui para nós, mesmo por sorriso anterior não é permitido para alma, que sentir-se-ía mentindo se continuasse sorrindo ao te ver, se nao mais me sorris, nem mesmo ensaias um pequeno sorriso amigável, mesmo que os amigos venham de lado, a presença do não-amigo é motivo mórbido para o fim de um sorriso que pertencia de uma outra alegria, por isso era negado. É o susto súbito do conhecido para transformar-se em des-conhecido, mas nao é o contrário que normalmente acontece? Não gostar...como eu queria, eu saberia talvez, senão tivesse aprendido a gostar daquela companhia. Não gostar é o coração que vinha andando tranqüilo por ai e estalar, tensionar os músculos da face num inexpressivo não gostar da presença não aceita e fechar-se bruscamente.
É apressar o passo, é o fim de toda calma, de toda alegria. É se agachar para não ser visto, é por a mão no rosto, tampar a vista, porque a ferida não pode mais ser exposta. É não confessar uma palavra sequer, é por vezes até concordar se um outro falar mal, é não dar mais de si, porque o outro não merece? É não fazer falta, é não existir mais de alguma forma, é uma morte súbita, é sentir-se morto, morto para o outro. Já não és visto [ou pelo menos não visto de boa vontade], é não falar, é não ouvir mais a voz do outro senão por meras coincidências, mas palavras dirigidas a ti? Não mais. Talvez nunca. É o completo não, é não encarar, é não ter importância nenhuma, mas quem suporta ser esquecido?
É não ver necessidade de um objeto em um canto da casa e jogá-lo, dá-lo a alguém. É o próprio incômodo da imagem ao teu olho que cansa só de olhar. É o excesso de algo que não te faz falta, ou falta te faz e para não sentir-se o recordar da falta, fecha-te para não reconhecer a falta que esse alguém te faz, é não ver no outro algo de você, é achar que o outro não é digno da tua boa companhia, é o não reconhecimento daquela figura ou a percepção de que nunca a conheceu de fato, senão não te terias surpreendido com o susto que um não gostar pode proporcionar. Não gostar é a ressaca de ter gostado. É o cansaço de ter dado algo em vão. Não gostar é sentir-se com razão para não gostar. Mas uma hora, sem que esperes, chega de nãos, pois para a vida acontecer é preciso um sim. A vida não é ser uma pomba idiota que ao ver gente sai desesperadamente a correr para alçar vôo. Não gostar é tão fácil, é ocasionado por uma incompreensão súbita, um embassamento de janelas que você não quer mais se dar ao trabalho de limpar, porque dá trabalho gostar. É o que toda relação de valor precisa suportar para seguir. É a passagem súbita do gostar para o não gostar a ponto de que à alma não deu tempo de se acostumar a não gostar e daí o incomodo, o não saber lidar. É a anestesiar-se para não sentir o que o outro ainda causa em ti. É assistir o outro de longe, incomunicável, é ser uma paisagem sem essência, que nada diz, que não chega a teu coração. É arrepender-se de ter gostado, é voltar atrás na decisão, é desdizer, esquecer uma porção de coisas e as que não esquecer, não procurar lembrar, é não saber se tem razão, mas ir a finco que tem razão e desconsiderar uma razão do outro? Que razão! Fala-se aqui de emoção e essa como hei de controlar? Mas insisto em não gostar. Não gostar é descompensar, é a perda de um significado, é supor que tudo já foi dito. É não rir com o outro, é por vezes, é rir do outro, quando alguém comenta discretamente contigo uma suposta falsidade do outro e tu, tolo, vens a concordar, mesmo sem ter ouvido bem o comentário e mesmo que nao venhas a concordar, concordas, para nao descordar de quem tu gostas e ainda solta aquele sorriso sarcástico de confirmação, ou mesmo, aperta a mão daquele que falou mal do teu desafeto, numa cumplicidade estranha. Concordar de não gostar é a pior cumplicidade: é a grande pobreza. É um gosto que vem de um desgosto, por isso, nao é gostar.
Ah, não gostar...é tão fácil! É fácil sim a passagem surpreendente do gostar para o não gostar, mas o contrário também se confirmar, senão nao existiria o fazer as pazes. É fácil gostar também. Escrevendo as razões, como quem escreve um tratado, repleto de razões para não gostar, uma vez que hoje senti não gostar alguém de mim, essas tolas razões, os pontos e contrapontos que carrego em mim, como minhas desculpas por não conseguir desgostar e minhas tolerâncias, desculpas concedidas mesmo sem serem pedidas para quem não consegue gostar e todos nãos e dizendo não a toda a hora e eis que um mero sim me veio abrir o fechado coração que estava para o não gostar, como um carinho inesperado está para o gostar. Então o inesperado aconteceu. Alguém lembrou gostar de mim e o telefone atendeu esse chamado. Surpreendente como em poucos instantes, eu que estava decidida a nao gostar passei a gostar da vida inesplicávelmente. E naquele instante eu percebi como não gostar é a própria desorganização da alma e como gostar, inevitavelmente reoganiza tudo. Faz tudo voltar a seu lugar. É anti-natural não gostar a quem a vida te ensinou a gostar desde as primeiras palavras que trocaram sem saber se iam se gostar. Eu que até então, naquela tarde sonolenta já estava até gostando de não gostar, um toque de telefone me fez lembrar o que é gostar. Ah, é tão melhor, é se entregar...
É um festejo íntimo, ou claramente compartilhado, a que o outro pode tomar conhecimento ou não. Na maioria das vezes sim. Não dá para evitar a efusão. A voz alegre que não consegue se conter diante da alegria de descobrir gostar, é falar alto, é o sorriso desenhar-se nos lábios em poucos instantes. É toda espontaneidade sem o medo da rejeição, enquanto todo não gostar é apenas a negação forçada do gostar, porque o gostar, de alguma forma fica, nem que seja na tua mais remota lembrança. Gostar é entregar o que há de bom em si sem receios, sem vigilâncias, sem avisos prévios do rosto para armar-se a nao gostar.
Gostar é expor o rosto, é andar despreocupado, calmamente, é falar despreocupadamente, desarrumar a mesa, é abrir a mão, é sentar no chão, é horas no telefone. Gostar é maior que não gostar e como uma tal riqueza de sentimento, vence.
Gostar!
Eu vou continuar. Não vou guardar de mim a sete chaves o que gostar, um dia significou pra mim

24 de fevereiro de 2010

Sentidos inválidos


Estava faltando algo que preenchesse aquela vida, com algum sentido não necessariamente lógico, mas necessariamente incitante, estimulante... algo que, pelo menos, trouxesse algum sopro de alegria, de alegria genuína. Chega uma hora em que se cansa das carcaças sempre tão encobertas por mil capas de misérias não recuperadas. Duras carapaças que de tão profundas e contidas de sofrimento, só deixam à amostra um superficial que agrada aos olhos dos tolos. Um sorriso não diz nada! A visão, esse sentido veloz, sempre nos enganou, pois o imediatismo nunca nos foi franco. Ele subverte o que está recôndito à tola visão. A máscara de alguma, quem sabe, profunda decepção é tão cautelosa que jamais se deixaria entrever por um olhar distraído e de canto de olho! Um orgulho que tenta disfarçar a fraqueza não permite olhar com franqueza...nem vê-la em seus gestos mínimos, esses são os que, de fato, revelariam a verdade das coisas, porque a verdade não se mostra assim, não está aos olhos de todos. Uma cabeça erguida nem sempre é sinal de vitória. Aquele olhar que lançamos por cima em sinal de orgulho se fecha demais e não alcança a totalidade.
Sorrir é muito fácil, o sorriso criado como expressão desse tão sonhado e quiçá ilusório estado de espírito, designado felicidade, foi usado por alguém, pela primeira vez, na intenção de expressar esse estado d’alma, mas constantemente usado como uma tentativa de quem, mesmo que por breves instantes, mostrar que tudo anda bem, sendo que sorri apenas, porque cansou de chorar e se julga outras vezes feliz porque cansou de estar triste.
Tentou, inutilmente, compreender seu desejo de solidão, de uma solidão que fosse sua amiga, que compreendesse sua dor inexplicável, sua dor insana, que por vezes beirava o precipício de uma loucura, contida a muito custo e que, muitas vezes, tomava ares de total sobriedade e comedimento. Esse desejo incoercível dominava quando fechava a porta daquele espaço tão indiferente à sua dor, na vã tentativa de não deixar escapar o resquício da segurança de que tanto queriam cerca-la, mas aquela aparente atmosfera de paz trazia a dúvida. E se tentasse? Não. Não seria capaz, os vãos das frestas eram pequenas demais, não poderia escapar. Quatro paredes frias, iguais e indiferentes de um compartimento que limitava cada vez mais os movimentos pareciam trazer consolo. A cama alta e macia compunha um cenário testemunha do medo incontível. Janelas bem fechadas, sem uma fresta de luz. Desejos reprimidos. Tudo era de uma paz duvidosa. De uma paz que não permitia uma elevação de voz, um cantarolar de alguma canção, um bater mais forte de portas. A porta sempre fechada metodicamente. Vozes baixas, choros mudos. Uma audição mais aguçada ouviria aqueles murmúrios de socorro. Nem o vento trazia mais um pouco de vigor àquela vida que pulsava apenas pelo costume de pulsar. O desencanto de esperar por algo que talvez nunca chegaria, trazia o desespero e desistia. Tudo exalava a mofo e os ácaros penetravam pela sua narina, impedindo até o olfato da agradável sensação que os cheiros nos trazem. Quando havia alguma distração, e a porta, sem querer, se abria, trazendo algum sopro que anunciasse, quem sabe alguma mudança, havia um susto que lhe fazia correr novamente para fechá-la.
Um dia impôs-se a obrigação de sair dali. Pouco a pouco foi amargando a passos incertos, que quase tombavam. Já sentia perder o domínio dos movimentos, afinal a lei do uso e desuso se vazia valer naquele momento. Sempre sentada, situação cômoda pra quem se recusa e muitas vezes também é impedido de caminhar sozinho. Foi testando aqueles novos espaços que seus pés hesitantes iam desbravando. Posição incorcovada, acovardada, incomodada. Não expor nada. Esse sempre fora seu objetivo. Um coração que nem se mostra, como dizia a poeta - e digo a poeta, porque assim era que Cecília se intitulava. Uma pequena fresta permitiu breve contato com a luz que tentava irradiar a sua vida. Aqueles reflexos a assustaram e quase a deixaram cega. Cambaleou, voltou-se um momento como quem desiste, parou, pensou, mas seguiu resoluta, apoiou-se numa mesa, símbolo maior do lar, e continuou. Naquele semblante havia um certo ar de neutralidade, que se confundiria com indiferença. Alguém que pudesse desvendá-la, descobriria que sua verdadeira face seria bem mais bonita do que aquela. Uma boca fechada, quem sabe tivesse tanto a dizer; o olhar, sempre motivo de tantas ilusões despertadas, inquietava-se na eterna busca ou acomodava-se na eterna espera. Uma marca cansada na testa. A pele se eriçava pelo simples contato com o vento. O nariz, como de um cão farejador, tentava se alcançar o que pelo sentido, o que tanto queria. Não se sabe se essa tentativa foi bem sucedida ou não, pois um pássaro aprisionado, quando re-experimenta a liberdade, já tem perdido a muito a habilidade de voar.

16 de fevereiro de 2010

Por fim, uma liberdade

"Onde a vida é de sonhar, Liberdade!"
Los Hermanos- Liberdade
Seria como a felicidade?
um breve momento semelhante a uma euforia vazia?
Seria se entregar por fim a uma brisa errante que por acaso tocasse seu rosto no que se esperava o vácuo?
Seriam as luzes encandescenters de uma festa de premiação em que o escolhido fosse o azarão?
pego de surpresa na inesperada anunciação de seu nome?
Seria o expandir da cauda de um cão nos pulos descompassados ao ver o dono na chegada inesperada?
Seria esquecer as instituições, as convenções, os mandamentos, os sete sacramentos e fazer algo por pura vontade vadia de quem sente a energia do momento pleno?
Seria um vazio preenchido a sufocar o vazio que só saberá definir por não tê-la?
Será as ínumeras definiçoes enciclopédicas?
A busca pela palavra certa, será por fim uma liberdade concedida aos que a buscaram a palavra no meio do caos dos pensamentos perdidos pela própria falta de definição?
Será a confusão das multidões em que voce pode andar sem sentir os pés alcançarem o chão
e ser transportado pelo movimento desordenado das loucas multidões que não sabem para onde vão?
será as torcidas de futebol que se inflamam aos berros vãos tentando comandar a vitória do time do coração?
Liberdade será por fim um cavalo selvagem a correr pelo arado buscando o que ele nem mesmo saber pela pura ânsia instâtanea por uma corrida consigo mesmo?
Liberdade será, para minha tristeza, o sentido mais desgastado, fazer o que bem se quer sem dar satisfação a ninguém?
Tendo a não-orientação. Ser quem só faz o que quer porque ninguém se importa mesmo com sua tola liberdade?
Será o estranhamento de um voar desconhecido, em que as asas se interrogam se aquilo é real?
Será somente contemplar a liberdade alheia?
Contemplar um pássaro que seja a voar livremente te faz livre?
A fluidez, as alturas, o céu de baunilha, a água mansa, ou a braveza do mar, um cão a se espreguiçar na minha sala sem se importar com quem está a olhar...
Só as coisas naturais me permitiram comparar à Liberdade.
Logo não poderei ser livre, porque outras forças sempre haverão de exercer sobre mim suas amarras institucionais, convencionais, sacramentais e, por incrível que pareça, me dando a impressão que estarei livre. Livre como a voz na canção que sai desprentenciosamente suave e distraída.
As amarras mais ferozes são as que se travestem das mais cordiais

E as máscaras?


Novo formato, nova dimensão, uma máscara a encobrir a face, sair de si...ser o outro, chegar ao outro sem tantos receios. Liquidifica-se o que se foi até então e outros padrões bem como não-padroes assume-se em quatro dias em que o mundo parece acabar em orgias, bebedeiras e folia. Sem preconceito. Tudo para aliviar as tensões. Poucas festas previstas no calendário anual são vividas com tanto entusiasmo como o carnaval.
Una a persona à festa da carne e se tem resultado de que as quarta-feiras de cinza tem mais que motivo de serem pesadas. A ressaca nao é só de bebida, mas moral, os comentários tem ser superficiais para nao sair do enredo da festa, os cansaços dos mais variados, desde dias emendados por noites até ressacas mal recuperadas em sargetas.
A persona entra em cena e o mais primitivo do ser também.
O divertimento do carnaval advém justamente do vazio no qual ele é pautado. Um vazio sem precedentes, que vem de muito tempo, que vem de antes do silêncio em que o universo pairava até o mundo ser criado e outros silêncios tomarem conta do silêncio do que só era uma possibilidade de existência para depois existir solenemente silencioso, buscando encobrir esse silêncio a todo custo.
É contra o silêncio constrangedor que há dentro de si e do silencio das respostas mal dadas, incompletas que o homem luta até hoje, buscando para isso, um barulho qualquer, que por quatro dias o ponha esquecido de seu reinado solitário.
Amanhã amanhecerá noturnamente um dia que carrega o luto dos que morreram na sede de viver pensando que viveram por sair de si para entrar no cerne da vida, para sentir a carne de outrem.
Ânsia de tocar a vida. Tocar a vida não é tocar o mundo. Não se pode confundir um conceito abstrato com um concreto, mesmo que o concreto pareça a demanda direta do abstrato. Não o é.
Tocar a vida é buscar em si o sentido da vida para si, não conhecer o mundano para sentir-se vivo por meio de outro.
Daí surge o conforto de buscar suas leituras esquecidas, suas bíblias guardadas, seus trabalhos, retomar a vida que lhe pareceu ofegar em extase naqueles dias de uma semana perdida.
Uma significação para a vida há se buscar e se perdoar benevolentemente para os grandes feitos do carnaval. O homem confrontando-se consigo mesmo para resgatar-se: vencer a preguiça adqurida pelo ócio, dá notícia aos parentes que está vivo, que o mundo nao acabou depois do carnaval e que ainda resta uma fita..bem ali, veja só, num fio de alta-tensão a balançar esperando o próximo ano a folia recomeçar
Buscar a resposta nos mortos? Quantos filósofos, não? literatos...auto-ajuda, revistas, conversas de botequim, discussões acadêmicas giram em torno das significaçoes que o homem busca para suas demandas interiores. As externas são fáceis de suprir. Mostrar, sorrir, falar, pular, dançar...
Mas dentro, o que verdadeiramente há?

13 de fevereiro de 2010

Por Motivos externos



No fundo, apenas os pensamentos próprios são verdadeiros e têm vida, pois somente eles são entendidos de modo autêntico e completo. Pensamentos alheios, lidos são como sobras da refeição de outra pessoa, ou como as roupas deixadas por um hóspede na casa.

Por não me saber,
Tolo fui de imaginar
Que por mera sensibilidade
Saberia ao outro decifrar

A premissa mais indicada
Para ao outro decodificar
É saber que não se sabe
Que nunca vai se alcansar

Buscando a forma exata
O ângulo ideal
Se pensa que a vida é
Um enquadre crucial

Lugar certo, momento ideal
Pessoa certa, mas qual?
Não buscar verdade absoluta
No meio do caos

Cada um com seu mistério
Há de passar por nós
E amor é o que podemos
No mais humilde de nosso ser
Oferecer de graça
Sem esperar recíproca igual

Não há nada que buscar
Entender de si em tal instância
Como se no outro fosse encontrar
Respostas para o que te atormentas
Visto que cada ser é uma ilha
Repleta de incertezas
Clareiras e Escuridões
Que Perpassam cada ser
Em seu semblante e em seu coração


6 de fevereiro de 2010

Incapacidade de amar?


Um dia, inexplicávelmente, eu estava na faculdade, e ele de longe a me olhar, com ar de anjo decaído. Talvez essa semelhança se devesse ao fato da imagem que eu fazia dele. Fui pregar um cartaz, distraidamente eu estava ajeitando as bordas do cartaz, no cumprimento daquela trivial tarefa. Mas algo me incomodou, a sensação de ser observada sempre me incomoda. Contudo, apesar do primeiro momento de estranhamento, eu passei até gostar daquela sensação. Por entre o verde e algumas colunas que nos separavam e dificultavam que nos olhássemos, apareceram algumas pessoas, olhando o cartaz e lendo suas informações. Eu não deixava de ter qualquer vergonha ao saber que ele me observava, mas o que imperava agora em mim era mais uma curiosidade de decifrar aquele olhar que perscrutava cada gesto feito na intenção de prender cada vez mais sua atenção para mim, cada palavra dita, que mesmo ele não ouvindo, despertaria nele a curiosidade de decifrá-la.

Houve um momento em que eu não mais consegui fugir minha atenção a seu olhar tão penetrante.

Suas atitudes superficiais me espantavam e tiravam meu equilíbrio tão comum e facilidade de manter uma previsibilidade das relações que manteria com as pessoas. Eu que sempre conseguia manter relações profundas com as pessoas, com ele, não mais que algumas palavras triviais, seguida de uma despedida fria. As conversas superficiais sempre me deram uma sensação de fracasso. De não conseguir atingir e chegar ao coração do outro e ele só confirmava essa sensação.

Eu já não tinha o que fazer ali...as pessoas se foram, a conversa acabou, o cartaz estava em seu lugar, assim como cada coisa devia estar. Ele ficou com seu violão na mão e eu segui pelo corredor.

O Batuque do Guarda-chuva lilás

Olhava para ela como quem olha algo que não terá a seu alcance. Todo dia ele a via mais bonita. Se arrumava, se pintava e saia. Da janela da sua casa ele quase que podia descrever todos os movimentos daquela mulher que exercia sobre ele tamanha obsessão. Sempre apressada e, no vigor daqueles passos destemidos, talvez tentasse enterrar a lembrança de um profundo incômodo. Batia a porta com força. Essa força tamanha parecia incompatível com os modos sempre tão bem portados daquela mulher, cuja a educação era irrepreensível. Seus gestos eram sutis e, em atitude espontânea, mas de quem tem consciência da própria beleza, movimentava-se na inquietude sensual do vestido preto. Todo dia a mesma rotina. Se arrumava , se pintava e saia. Nas mãos límpidas e de unhas bem feitas, uma bolsa de grife e um guarda chuva de uma cor tão incomum, tão inexpressiva, tão vazia de significado, que ele julgava desnecessário para a composição daquele perfil tão clássico de mulher.
Era lilás o guarda-chuva.
Ao se assegurar de que não havia esquecido nada, lançava um olhar tão indiferente quanto brilhante para casa ao lado, e aquele brilho incontido e indecifrável quebrava a hostilidade aparente, pois os brilhos quebram qualquer impressão de indiferença. Engraçado que aquele homem que a observava com tanta clandestinidade e agudeza, podia descrever cada passo, cada mínima atitude daquela mulher, só não conseguia captar a expressão do olhar.
A inutilidade do guarda-chuva, para ele, se devia ao fato de nunca chover. Todos os dias o sol inclemente queimava com mais intensidade, e inevitavelmente deteriorava aquela expressão de traços finos e delicados e ia, aos poucos deixando as marcas cansadas que só as longas esperas deixam. Essas marcas se revelavam pela constância de olheras eram tão lilases e presentes quanto a companhia daquele guarda-chuva ausente. Tentava disfarçá-las com maquiagem, mas, de fato, só ela saberia a profundidade delas.
Era tão metódica, que sentia a necessidade de levá-lo todo dia consigo, mesmo sabendo que não iria chover.
O guarda-chuva abria, um coração se fechava.
Quanto mais força ela dedicava a esse ritual, maior era sua tentativa desesperada de fechar-se para o mundo. Abria-o só para que o mofo não o deteriorasse. E aquele olhar, antes indecifrável, tornava-se claro ante a visão de uma abertura tão sem recusas como aquela, mas os dias que se seguiam, sem esperança de inundação, ou quem sabe até de um dilúvio que pusesse fim ao seu tormento tão igual, eram imutáveis. Era tudo isso que ela precisava.
Ele só saia depois dela. Temeria um encontro frontal, com aquela mulher tão independente e ao mesmo tempo tão dependente de um objeto? Ela poderia alegar precaução, caso fosse inquirida sobre a necessidade de um guarda-chuva de dias de sol.
O suor escorria entre o decote que comportava formas tão fartas. E sabe-se lá onde ia se depositar. O vigor com que segurava o guarda-chuva o enciumava. Teria ela, um dia o segurado com tamanha vontade?
Naquele dia, ela fez tudo igual, mas esqueceu o guarda-chuva. Já estava distante de casa quando se lembrou. Não poderia mais voltar para buscá-lo. O guarda-chuva ficara esquecido no canto da porta. O dia transcorrera sem maiores transtornos. Ainda bem que o dia estava limpo, constatou ela. Ao anoitecer, porém nuvens pesadas foram se formando até que o tempo se fechou por completo. Perdera até a carona da amiga de trabalho. No fim do dia tudo estava dando errado. Saiu na esperança de não ser transbordada pelo que tanto temia.
A chuva começara impiedosa e fora tão veemente que desmanchara todas as carcaças que durante o dia ela tentava encobrir. A maquiagem escorrera. O cabelo desmanchara-se. A roupa colara-se ao corpo quase como segunda pele, mostrando por completo aquelas formas tão rijas e bem desenhadas, que ela escondia dentro do vestido preto. Tremia. Estava furiosa pelo esquecimento daquele objeto que julgava tão importante. Esperava o sinal fechar para que pudesse atravessar a rua. Um carro jorrou água nela. Daí perdera por completo a compostura. Disse um palavrão com o motorista. Nesse momento, uma figura inesperada se pôs de pé ao seu lado, de cabeça baixa e com um risinho de canto de boca que tentava conter a muito custo. Um pequeno sorriso incontido, como quem se enche de uma satisfação íntima. Não a olhou de imediato, foi abrindo o enorme guarda-chuva . Ela se sobressaltou com o batucar impactante do guarda-chuva. Deu um gritinho e três pulinhos bem femininos que o fizeram escancarar o sorriso. Fez uma expressão de surpresa tão artificial ao encará-la, que parecia ter sido ensaiada a tempos.
Não ofereceu abrigo no guarda-chuva portentoso, apenas o colocou acima dela. Ela permaneceu imóvel, mas aceitou relutante o abrigo. Calados e imóveis. O sinal já havia fechado. Ele que já estava de posse do guarda-chuva, se apoderou agora daquela mão que ele tanto queria segurar e seguiu resoluto no domínio do que tanto invejara e ao lado do que tanto desejara.