Aprendendo a ser

Minha foto
Fá-lo-ei por eles e por outros que me confiaram as suas vidas, dizendo: toma, escreve, para que o vento não o apague.

26 de setembro de 2010

No Princípio era

Glenn McDuffie, marinheiro americano que roubou um beijo de uma enfermeira no após saber da rendição japonesa o que selou o fim da Segunda Guerra.
No princípio era o acaso
Depois, o ocaso nos levou a um momento furtivo
E eu enfim te conhecia
Em todas as cores...
E nas cores mais lindas do meu dia

Fagulhas do teu olho
Trespassavam o meu corpo
Mas eu..eu nao sentia dores
Mas calafrio o corpo me percorria

12 de setembro de 2010

Triste ofício

Triste é a poesia
Mais triste ainda é o poeta
Que só sabe cantar sua musica
Aquela mais predileta...
Dando a ela triste melodia
Pobre toada de um poeta

É tão pouco o que me resta
Pra fazer uma poesia
Um arremedo de conversa
Que ora distraída, ora perplexa
Tiveste comigo outro dia

O que me resta é tão pouco
Que mal me sai no canto da boca
O que me resta é uma farsa
Do que foi tua paisagem
O que me resta é um brinquedo
Que desiluso brinquei quieto
O que me resta é uma dor
Que coitada, nunca passou
O que me resta é uma sobra de amizade
Que sem amigos, fracassada, já foi tarde
O que me resta é falar ao vento
Ou simplesmente descrever a paisagem
Que ali inerte, prefere ficar extática
E sabe que tudo, tudo na vida é de passagem 

Tudo é fluido e transitório
Por isso não me vale ficar sóbrio
Tudo é falso e me dá medo
Vou voltar pros meus brinquedos
Regredir, única saída...
Pra não me perder mais ainda
Pensar nos tempos em que tolo eu fui 
E pensar que tudo pra sempre...


"Cada palavra é uma borboleta morta espetada na página: Por isso a palavra escrita é sempre triste."
Mario Quintana


















18 de agosto de 2010

Distância

Um livro aberto
A bagunça habitual
Os filmes espalhados...
E mais livros, logo ali empilhados
Perto da cama, meu mudo-criado
A espreitar minhas conversas de telefone
Pois já não me vale ficar assim tão calado
Esperando o resultado de todos os meus pecados

Papeis avulsos e alguns documentos usados
Também esperando a resolução dos meus medos
Meus velhos perdidos e nunca achados...

Roupas que usei...ali num cabide torto
E minha mãe, muda ao pé da porta
Me dá um sorriso de canto de boca
Trocamos palavras
Mas confusas, nunca nos dizemos nada
Sobra sentimento, que nos corrói por dentro
Mas expressá-lo, que pena!
Desaprendemos cedo

Ela puxa assunto de suas longínquas novelas
Das histórias que me contava tão singela
Quando eu a ouvia
E não me achava mais sábia que ela

Ela volta aos seus afazeres diários
E nos intervalos, sempre nos dizemos algo
Mas nossa distancia é maior que nos podemos permitir

Ela reflete e conversa com a amiga
Troca com ela, no jardim, as flores mais belas
Fala de Deus e das suas velhas rezas
Enquanto eu desatenta nem dou por ela
E ela também não dá por mim
Mas ainda chega no quarto a me sorrir

Eu a amo como quando em pequena
Quando sentava rindo ao colo dela
Mas parece que meu fado eterno
É amar aos que amo em silêncio perpétuo.

"Às vezes, a maior jornada é a d i s t â n c i a entre duas pessoas" 
(trecho do filme O Despertar de uma paixão)

30 de julho de 2010

Saudade do que não foi



É que...
Eu nunca soube
Que os meus grandes amores viriam tarde
Que os meus amores tarde viriam para mim
Quando eu mal sabia que a ventura dos grandes amores
São as grandes dores que eles nos fazem sentir

Teria por mediocridade de amor que quer ser vivido
Retardado o sentimento
Esperado a hora do beijo
Renegado tão logo desejo
Tão cedo ele tivesse se pressentido

Ah, eu não teria consumido esse amor em vão
Perdê-lo a ermo
Nem feito dele meu calmo desassego
Se eu soubesse teria, bem que teria...
Suprimido minha presença e tarde me apresentado
Assim e só assim eu seria para ti
O que hoje sou
Sonho de amor teu
Mas sonho meu já não és

O sonho do teu amor
Pra mim tarde...
Pra ti cedo...
Contudo, desencontrado a nós nos chegou
Ah, essa pétala caída!
Que em tempo errado se regou
Essa plantação perdida!
Que chuva o céu renegou
Esse teu sorriso que a mim só se direcionou
Tão logo pra outro lado minha visão se voltou

Ah, que esse amor tarde a ti me chegou
Como fruto apodrecido
Que nem mesmo sentirá a mordida do desejo
Ah, um desencontro da vida, de vidas
Nos aqui, em nossas posições iniciais
Naquele velho e conhecido jogo lento de xadrez
Que você nunca me deixou jogar...
Ainda te olho, juro que te olho buscando algo
Quem sabe a ti...
Mas nada mais, meu amor, posso sentir.

17 de julho de 2010

Desejar-te secretamente

Posso ingênuo rabiscar teu nome junto ao meu
Pensando que significa alguma coisa...
Mas não...apenas palavras soltas ao papel
Nós, a uma distância maior que uma palavra pode supor
Nós juntos apenas no meu mais tolo sonho de amor

Fácil é somente recordar dos dias
Em que espassadas vezes te vi
Passando despercebida
Linda! Sob o meu olhar que te perscrutava ao mais sutil dos gestos teus
Que no fundo, ah como queria que fossem meus!

Te ver, sem veres que por mim eras notada
Era a mais suprema graça
Poder olhar tuas minúcias
De forma insuspeita e recatada
Jamais imaginarias que por mim eras desejada

A contemplação bem pode ser a mais bela forma de amar
Apenas a visão se satisfaz para a absorção do teu ser
Outros sentidos, inertes ficarão
Sentindo apenas o que me causa tua distraída aparição

O movimento estranho de minhas mãos
Confusão causa em meu ser
Escondem-se por entre os bolsos, na cava dos braços
Abrançando-me aflito a perseguir teus passos
Enquanto o desejo por mim previsto
Seria o que tu bem sabes qual é
Queria um toque, um toque que fosse
Em teus negros cabelos
Mas meu fraco apelo não sai de mim para chegar a ti
As palavras saem difíceis, atrapalhadas se prendem entre os dentes
Enquanto tu, apenas sorris contente

Tem horas que eu digo basta e esqueço
Mas se vejo, estremeço
E esqueço que disse basta
E volto ao começo.


Nem sabes tu, oh louca em desvario,
Cheia de amores
Não menos repleta de dores
Que o meu amor é maior que o meu desajeito
E maior, bem maior que o meu peito.

15 de julho de 2010

Lista das minhas obras da alma

Bom, me mandaram fazer uma lista de 3 a 7 livros que “marcaram minha vida” adorei o apelo trágico rs então, vamos à lista e as suas explicações.

- Mario Quintana – Obra completa
Pode parecer um exagero, é isso mesmo, eu li a obra completa desse poeta em dupla com uma grande amiga minha, a Débora Queiroz, o que enriqueceu mais ainda a leitura, porque nós compartilhamos dessa leitura de uma forma muito agradável, ligávamos uma pra outra so pra comentar, assim que nos víamos na uece vinha à mente um poema ou outro, nossas conversas eram repletas e entrecortadas de Mario, portanto impossível esquecer a leitura e a troca intelectual com essa grande amiga

- Leite derramado – Chico Buarque
Um velho num quarto de hospital com uma pessoa aparentemente mais jovem ao lado com a qual ele rememora seu passado e preludia um futuro com ela, mas sem deixar de falar de sua esposa e de sua família. O livro me ganhou logo nas primeiras páginas por conta da entrega. A fala desarticulada e caótica do ancião cria dúvidas e suspense que prendem o leitor por se tratar de uma memória repetitiva mas contraditória, obsessiva mas esburacada. A esposa tão diferente mas mesmo assim adorada ao mesmo tempo que determina a paixão arrebatadora do marido, ocasiona a infelicidade dos dois.
“Não sei por que você não me alivia a dor. Todo dia a senhora levanta a persiana com bruteza e joga sol no meu rosto. Não sei que graça pode achar dos meus esgares, é uma pontada cada vez que respiro. Às vezes aspiro fundo e encho os pulmões de um ar insuportável, para ter alguns segundos de conforto, expelindo a dor. Mas bem antes da doença e da velhice, talvez minha vida já fosse um pouco assim, uma dorzinha chata a me espetar o tempo todo, e de repente uma lambada atroz. Quando perdi minha mulher, foi atroz. E qualquer coisa que eu recorde agora, vai doer, a memória é uma vasta ferida.”
- Carta ao pai – Kafka
muito lindo, perfeito, identificação completa

- Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres – Clarice Lispector
meu primeiro e feliz contato com Clarice e foi um livro que mudou muito do que eu pensava, um livro que me ensinou sobre a vida, sobre o amor, sobre a essencia de uma relação de duas almas – Ulisses e Lóri

- Dom casmurro – Machado de Assis
a melancolia de Bentinho recordando seu passado e a dúvida nunca esclarecida me tocam, bem como a crueza do Machado, coisa que eu adoro e me traduz um pouco.

- Fragmentos de um discurso amoroso – Roland Barthes
Saindo da vertente literária, esse livro consegue me tocar de forma igual como uma obra literária, tendo em vista que Barthes desvenda por meio da teoria um pouco do que o amante com sua vista embotada pode ver do seu amado.

12 de julho de 2010

Uma volta ao pai

"A sombra de meu pai, tomou-me pela mão, porém nada dizia"
Viagem na Família - Carlos Drummond de Andrade
Pai, aí está você à mesa, posso ver agora...ao controle da tv, na rede à varanda solenemente olhas para o teto e contemplas a ti mesmo em silencioso diálogo travado nas tuas tardes sonolentas de funcionário público aposentado. Posso te prever em qualquer ambiente da nossa casa, conversando com um amigo sobre as banalidades do dia, sobre o campeonato e sobre pessoas que passam por ti. Ficas, com tudo, onde estiveres, com a imponência de um soberano que ocupa com autoridade e destreza a sua função de provedor, por vezes árdua, mas que tomas por gloriosa e por isso mesmo, inflinge o teu poder sem maiores preocupações com quem está ali...um súdito qualquer.
Nossa convivência: diária e silenciosa, numa distância como que íncomoda ao esperado por um pai e um filho.
Para suster segurança e controle do lar, és capaz dos gestos mas nobres( disso nunca duvidei) mas também de indiferenças (estas por sua vez, menos compreendidas) por mim em detrimento da afetividade, ingenuamente suposta em que se dariam os laços que nos unem.
Poucas palavras e muitas reclamações veementes aos ouvidos cansados de minha mãe, compõem o nosso laço tão atávico, quanto frágil (em pouco tempo se mostrou.)
Em algum momento, que por distraído que estava nos meus conflitos e livros e amigos tão incoerentes pra você, tomando-os de partida como alheios e por fim, desimportantes, geraram uma distância sem maiores precedentes aparentemente, a meu ver.
Tudo se deu na cumplicidade ignota dos anos vividos a pulso forte e cólera.
A esse ponto, vendo-te distraído, parece-me tão doce, quanto vago a minha precária apreensão do teu ser cansado, sabe-se lá porque dores nao assimiladas e resolvidas dentro em ti e dos teus óculos aperreados, dos teus bolsos cheios e papéis importantes ou de ralas notas, dos teus olhos tristes para o mundo e indiferentes para mim. Fomos assim. Assim nos acomodamos nos nossos compartimentos descompartimentados. Assim te rememoro, vaga recordação da nossa precária relação Pai e filho.

24 de junho de 2010

Encontro assustado

Teu rosto é hoje
Um retrato [
bem] escondido
Entre as páginas de um velho livro [
meu]:
Que eu nunca li!
Apreendo agora teu rosto
[Contudo] perdi tua feição
Fito teu olho
Mas teu olhar, Oh nao!
Teu gesto, antes ao longe reconhecido
Hoje sujeito apenas à minha vaga recordação
Tua palavra, antes suposta, quase adivinhada
Hoje... palavra mais não
Murmúrios de saudade talvez
Hesitem em professar teu nome
Que a palavra vã, uma vez invocada
Trilha caminhos desconhecidos
E vem ter contigo em meu coração
Tu morto jaz à fotografia
Eu viva, buscando-te ainda não sei porque
Mas ja me encontro em plena agonia

20 de junho de 2010

Poema das sete faces urbanas

A CA Ribeiro Neto e a Carlos Drummond de Andrade

Um dia desses
um colega de bar me disse:
Vai Zeca, ficar safado da vida!

As mulheres tão aí mesmo
O jogo em tempos de copa, já vai começar...
Então...é só saber se chegar

O bom malandro
Passa o tempo, passa as horas
Buscando nas coisas vazias
Qualquer coisa, qualquer pilhera
Pra preencher sua monotonia

A topic passa cheia de pernas
Que não me deixam passar
Mas não somente as pernas que vêm pra me sufocar
Braços, peitos, bundas de todo jeito
Pra que tanto corpo exposto meu Deus?
Pergunta meu coração
Que querendo descer da topic nao encontra espaço vão

As câmeras, as luzes, os holofotes do mundo
espiam as casas
e hoje são as mulheres que correm atrás dos homens
A noite poluída de azul ficou cinza
Já não há tantos desejos...

O homem atrás da latinha de cerveja
Esconde os sentimentos
E diz que tudo está bem
E quando se inebria, ao contrario
Diz pra todos que tudo anda mal

Meu Deus, porque me abandonaste
Se sabias que eu nao era Deus
Se sabias que eu era vasco
Se eu vou pro campo
Nao sei jogar
Se vou torcer
Acabo por brigar

Eu não devia te dizer
Mas esse jogo, essa tarde de domingo
Essa cerveja barata, esse copo
E o seu corpo na minha mão
Essa modernidade que me deixa louco
Deixa a gente comovido como o diabo

22 de maio de 2010

Motivo

"Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê."
Luis Vaz de Camões  
______________________________________________________________ 

 A Cecília Meireles

Mais uma vez
Procurando no papel em branco
Soluções pro meu vazio
Tateando no escuro
Algo que me aconchegue no silencio frio
Se de sentimentos minha alma é repleta
Porque em tantos momentos me sinto só e incompleta
Companhia não é o que falta
Mas cumplicidade
Sorriso não é o que falta
Mas amizade
Carinho não é o que falta
Mas sentimento
Tudo por aqui falta
Aquela coisa que se tem pra que tudo que se vive
Tenha vontade de florescer:
MOTIVO