Aprendendo a ser

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Fá-lo-ei por eles e por outros que me confiaram as suas vidas, dizendo: toma, escreve, para que o vento não o apague.

5 de março de 2010

Não gostar


É um tal enfado. É não querer ver. É encontrar-se sem querer e virar o rosto por querer. É ter a alma deserta. É ver a morte de ti no outro. É ver a morte do outro em ti. É perturbar-se ao encontrar uma lembrança do que foi. É ficar sério ao olhar uma foto de ti sorrindo com o outro. Quanta contradição, como posso já não gostar, se gostar está para tudo que há no mundo, pois o mundo nos encanta, nos faz gostar!....e não gostar? poderá ainda ser um sentimento profundo? Não é nem esquecer-se...Pena não ser simplesmente um esquecimento, porque o esquecimento é um conforto da angústia, ou uma angústia conformada pela ausência aceita, declarada, ou nao delcarada, que veio de uma distância que não foi combinada, mas friamente subtendida. É andar sorrindo entre os amigos, mas na presença inesperada, que vem no corredor, o rosto congelar-se, porque sorrir não é mais aqui para nós, mesmo por sorriso anterior não é permitido para alma, que sentir-se-ía mentindo se continuasse sorrindo ao te ver, se nao mais me sorris, nem mesmo ensaias um pequeno sorriso amigável, mesmo que os amigos venham de lado, a presença do não-amigo é motivo mórbido para o fim de um sorriso que pertencia de uma outra alegria, por isso era negado. É o susto súbito do conhecido para transformar-se em des-conhecido, mas nao é o contrário que normalmente acontece? Não gostar...como eu queria, eu saberia talvez, senão tivesse aprendido a gostar daquela companhia. Não gostar é o coração que vinha andando tranqüilo por ai e estalar, tensionar os músculos da face num inexpressivo não gostar da presença não aceita e fechar-se bruscamente.
É apressar o passo, é o fim de toda calma, de toda alegria. É se agachar para não ser visto, é por a mão no rosto, tampar a vista, porque a ferida não pode mais ser exposta. É não confessar uma palavra sequer, é por vezes até concordar se um outro falar mal, é não dar mais de si, porque o outro não merece? É não fazer falta, é não existir mais de alguma forma, é uma morte súbita, é sentir-se morto, morto para o outro. Já não és visto [ou pelo menos não visto de boa vontade], é não falar, é não ouvir mais a voz do outro senão por meras coincidências, mas palavras dirigidas a ti? Não mais. Talvez nunca. É o completo não, é não encarar, é não ter importância nenhuma, mas quem suporta ser esquecido?
É não ver necessidade de um objeto em um canto da casa e jogá-lo, dá-lo a alguém. É o próprio incômodo da imagem ao teu olho que cansa só de olhar. É o excesso de algo que não te faz falta, ou falta te faz e para não sentir-se o recordar da falta, fecha-te para não reconhecer a falta que esse alguém te faz, é não ver no outro algo de você, é achar que o outro não é digno da tua boa companhia, é o não reconhecimento daquela figura ou a percepção de que nunca a conheceu de fato, senão não te terias surpreendido com o susto que um não gostar pode proporcionar. Não gostar é a ressaca de ter gostado. É o cansaço de ter dado algo em vão. Não gostar é sentir-se com razão para não gostar. Mas uma hora, sem que esperes, chega de nãos, pois para a vida acontecer é preciso um sim. A vida não é ser uma pomba idiota que ao ver gente sai desesperadamente a correr para alçar vôo. Não gostar é tão fácil, é ocasionado por uma incompreensão súbita, um embassamento de janelas que você não quer mais se dar ao trabalho de limpar, porque dá trabalho gostar. É o que toda relação de valor precisa suportar para seguir. É a passagem súbita do gostar para o não gostar a ponto de que à alma não deu tempo de se acostumar a não gostar e daí o incomodo, o não saber lidar. É a anestesiar-se para não sentir o que o outro ainda causa em ti. É assistir o outro de longe, incomunicável, é ser uma paisagem sem essência, que nada diz, que não chega a teu coração. É arrepender-se de ter gostado, é voltar atrás na decisão, é desdizer, esquecer uma porção de coisas e as que não esquecer, não procurar lembrar, é não saber se tem razão, mas ir a finco que tem razão e desconsiderar uma razão do outro? Que razão! Fala-se aqui de emoção e essa como hei de controlar? Mas insisto em não gostar. Não gostar é descompensar, é a perda de um significado, é supor que tudo já foi dito. É não rir com o outro, é por vezes, é rir do outro, quando alguém comenta discretamente contigo uma suposta falsidade do outro e tu, tolo, vens a concordar, mesmo sem ter ouvido bem o comentário e mesmo que nao venhas a concordar, concordas, para nao descordar de quem tu gostas e ainda solta aquele sorriso sarcástico de confirmação, ou mesmo, aperta a mão daquele que falou mal do teu desafeto, numa cumplicidade estranha. Concordar de não gostar é a pior cumplicidade: é a grande pobreza. É um gosto que vem de um desgosto, por isso, nao é gostar.
Ah, não gostar...é tão fácil! É fácil sim a passagem surpreendente do gostar para o não gostar, mas o contrário também se confirmar, senão nao existiria o fazer as pazes. É fácil gostar também. Escrevendo as razões, como quem escreve um tratado, repleto de razões para não gostar, uma vez que hoje senti não gostar alguém de mim, essas tolas razões, os pontos e contrapontos que carrego em mim, como minhas desculpas por não conseguir desgostar e minhas tolerâncias, desculpas concedidas mesmo sem serem pedidas para quem não consegue gostar e todos nãos e dizendo não a toda a hora e eis que um mero sim me veio abrir o fechado coração que estava para o não gostar, como um carinho inesperado está para o gostar. Então o inesperado aconteceu. Alguém lembrou gostar de mim e o telefone atendeu esse chamado. Surpreendente como em poucos instantes, eu que estava decidida a nao gostar passei a gostar da vida inesplicávelmente. E naquele instante eu percebi como não gostar é a própria desorganização da alma e como gostar, inevitavelmente reoganiza tudo. Faz tudo voltar a seu lugar. É anti-natural não gostar a quem a vida te ensinou a gostar desde as primeiras palavras que trocaram sem saber se iam se gostar. Eu que até então, naquela tarde sonolenta já estava até gostando de não gostar, um toque de telefone me fez lembrar o que é gostar. Ah, é tão melhor, é se entregar...
É um festejo íntimo, ou claramente compartilhado, a que o outro pode tomar conhecimento ou não. Na maioria das vezes sim. Não dá para evitar a efusão. A voz alegre que não consegue se conter diante da alegria de descobrir gostar, é falar alto, é o sorriso desenhar-se nos lábios em poucos instantes. É toda espontaneidade sem o medo da rejeição, enquanto todo não gostar é apenas a negação forçada do gostar, porque o gostar, de alguma forma fica, nem que seja na tua mais remota lembrança. Gostar é entregar o que há de bom em si sem receios, sem vigilâncias, sem avisos prévios do rosto para armar-se a nao gostar.
Gostar é expor o rosto, é andar despreocupado, calmamente, é falar despreocupadamente, desarrumar a mesa, é abrir a mão, é sentar no chão, é horas no telefone. Gostar é maior que não gostar e como uma tal riqueza de sentimento, vence.
Gostar!
Eu vou continuar. Não vou guardar de mim a sete chaves o que gostar, um dia significou pra mim

5 comentários:

Jéssica de Sousa disse...

Toda vez que leio um texto teu me sinto tao pequena...
você evidencia as coisas óbvias, mas imperceptíveis a olhos nus.
Perfeito

Marília Maia disse...

Oi querida, brigada pelo último comentário que vc fez lá no meu blog, engrançado como não nos conhecemos, eu nunca falei com vc, somente aqui, e vc consegui fazer uma excelente leitura da minha poesia. Poucos são os que conseguem realmente entender o que escrevo. Isso é sublime.

Mas enfim, li o teu texto. Olhe, em algumas linhas me perdi... tive que ler uma segunda vez para entender o que vc escreveu, mas confesso que ainda estou meio perdida, rsrrsrsrs. Gostar e não gostar são coisas assim muito relativas, muda de pessoa para pessoa... ainda vou ler outras vezes aqui... quando eu entender mesmo voltarei a fazer um novo comentário.

Ok
Beijão
;)

CA Ribeiro Neto disse...

Herbenia, é incrível como não consigo me concentrar completamente em seus textos! Sempre quando estou lendo, uma frase ou outra me lembra algo e acabo pensando em várias coisas.

Seus textos já são grandes, e ainda mais com essas "fuga do tema" da minha leitura, deixa-me muito cansado, confesso.

Quanto ao texto, parece um texto movido tão somente pela emoção, como o próprio texto evidencia, e exatamente por não ter razão nisso, não há explicação do gostar e não gostar. Gosta-se ou não gosta-se!

beijo grande, linda!

Thiago César disse...

nossa, tao bom q estou sem palavras!
ateh me identifikei um pouco!
tem razao quando diz q nao gostar eh supor q tudo jah foi dito...
e tem razao tb em dizer q gostar eh melhor q nao gostar q ainda sobrevive na lembrança qnd nao se está gostando... ao contrario do q acontece com o nao gostar, q eh totalmente eskecido qnd se gosta!
deu pra entender neh? hehe!

Marília Maia disse...

Voltei como prometido...

Bem!? Vamos lá... Justificando a minha ausência nos últimos dias, não passei aqui pois andava meio atrelada com o meu trabalho... cheguei a postar alguns textos lá no meu blog, mas eram textos que já tinha um certo tempo, que já havia escrevido... comentei em outros blogs, mas é pq eram textos que eram consideravelmente pequenos então dava (ou tentava) lê-los e tirar algum entendimento rápido, fora ainda que já conheço a maioria dos blogueiros de quinta (então fica até mais fácil saber o que eles querem expor). Mas, os seus textos como já falei, não são daqueles do tipo vou ler rápido e depois comentar qualquer coisa. São grandes, parece a primeira vista que frases podem vim a ser repetitivas, mas não! não são!
Cada uma tem o seu significado... Cada qual expressando uma época...
Assim sendo, vendo o seu texto novamente, vi que quando vc fala:

"Não gostar é a ressaca de ter gostado. É o cansaço de ter dado algo em vão. Não gostar é sentir-se com razão para não gostar."

Ressaca, pq deve te deixar cansado de esperar uma resposta, que nunca virá... Pois o silêncio é entre os dois é o abismo que os separa... Você se esforça, e dar-se, confessa... mas só o que sente é o frio tremendo da imensão do abismo... um frio que advém dele. E só te resta a "razão", essa que fica doida e atônita para colocar tudo em ordem aquilo que estava em desordem.

E em palavras ainda tens:

"É a anestesiar-se para não sentir o que o outro ainda causa em ti. É assistir o outro de longe, incomunicável, é ser uma paisagem sem essência, que nada diz, que não chega a teu coração"

O anestesiar só serve para suprimir aquela dor que vc não desejou, e quem em sã consciência deseja a dor? Somente os apaixonados, eu creio, pois estes são capazes de dar-se para não ferir o amado.

Mas já:

"E naquele instante eu percebi como não gostar é a própria desorganização da alma e como gostar, inevitavelmente reoganiza tudo"

Acho o contrário... O gostar é dar passagem a emoção e desorganizar tudo aquilo que a razão quis sempre deixar organizado. Estar organizado é quando vc escuta a voz da Razão e não do Coração (emoção). A desorganização faz tudo sair da sua órbita, do seu eixo para cair em "buraco negro"... Onde vc não vê muita coisa...

Mas, concordo com essa parte aqui...

"Gostar é expor o rosto, é andar despreocupado, calmamente, é falar despreocupadamente"

Quando se estar gostando de alguém, não se estar preocupado com o mundo e sim com o que seu coração estar por dizer... ai vem a tranquilidade, pq ela vem a te falar, não te preocupas não... isso se é paixão!

rsrsrsrrs.
Eu acho que é isso.

Ok!
Beijão!
;)